SÓ MAIS CINCO MINUTINHOS

Numa manhã, ao ser rudemente despertado de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado em um gigantesco inseto. Atormentado por um instante, tateou atrás do celular, apertou o soneca, e voltou a sonhar que era homem. 

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(escrito em ago/19)

 

SONHO AMERICANO

Mauro abriu os olhos e o despertador tocou. Seis da manhã, dizia o mostrador luminoso do celular. Deitado de costas, o peso das cobertas era como um casulo, e foi desse invólucro que se permitiu absorver os sinais de vida na casa, como fazia todas as manhãs.

Ouviu a esposa saindo do chuveiro, o som ligeiro do fluxo de água sendo interrompido. Sentiu o cheiro do seu hidratante misturado ao perfume cítrico. O filho chorou do berço, pedindo a mãe; a porta do quarto rangeu ao ser aberta.

O aroma forte do café passado e das torradas com manteiga veio da cozinha, assaltando os corredores. O som da TV era abafado pelo filho rindo e pelo tilintar das chaves do carro, presas à sua mãozinha, sacudindo pra lá e pra cá. Não viu o sol entrando pela janela estreita sobre a pia, mas pode senti-lo.

O despertador tocou novamente. Seis e meia da manhã, o último horário em que podia sair da cama sem estar mais atrasado para o trabalho do que de costume. Se despiu das cobertas e jogou as pernas para a beira do colchão, pousando os pés na pilha de roupas do dia anterior. As vestiu, calçou os sapatos, se dirigiu à cozinha.

Mauro encheu sua caneca de Dia dos Pais de água e ajustou o tempo no micro-ondas — dois minutos. Quebrou o jejum com café instantâneo e o último cigarro do maço. Sentado à mesa, observou sem ver a louça minguada para lavar, as embalagens de tele-entrega sobre a bancada, a sala de estar sem móveis.

Franziu a testa por um instante ao girar a maçaneta da porta da frente. Mas, dispersando o devaneio com um balançar de cabeça, só saiu da casa, trancou a porta, e se dirigiu ao ponto de ônibus.

As cortinas das janelas permaneceram fechadas. 

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(escrito em out/19)