SONHO AMERICANO

Mauro abriu os olhos e o despertador tocou. Seis da manhã, dizia o mostrador luminoso do celular. Deitado de costas, o peso das cobertas era como um casulo, e foi desse invólucro que se permitiu absorver os sinais de vida na casa, como fazia todas as manhãs.

Ouviu a esposa saindo do chuveiro, o som ligeiro do fluxo de água sendo interrompido. Sentiu o cheiro do seu hidratante misturado ao perfume cítrico. O filho chorou do berço, pedindo a mãe; a porta do quarto rangeu ao ser aberta.

O aroma forte do café passado e das torradas com manteiga veio da cozinha, assaltando os corredores. O som da TV era abafado pelo filho rindo e pelo tilintar das chaves do carro, presas à sua mãozinha, sacudindo pra lá e pra cá. Não viu o sol entrando pela janela estreita sobre a pia, mas pode senti-lo.

O despertador tocou novamente. Seis e meia da manhã, o último horário em que podia sair da cama sem estar mais atrasado para o trabalho do que de costume. Se despiu das cobertas e jogou as pernas para a beira do colchão, pousando os pés na pilha de roupas do dia anterior. As vestiu, calçou os sapatos, se dirigiu à cozinha.

Mauro encheu sua caneca de Dia dos Pais de água e ajustou o tempo no micro-ondas — dois minutos. Quebrou o jejum com café instantâneo e o último cigarro do maço. Sentado à mesa, observou sem ver a louça minguada para lavar, as embalagens de tele-entrega sobre a bancada, a sala de estar sem móveis.

Franziu a testa por um instante ao girar a maçaneta da porta da frente. Mas, dispersando o devaneio com um balançar de cabeça, só saiu da casa, trancou a porta, e se dirigiu ao ponto de ônibus.

As cortinas das janelas permaneceram fechadas. 

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(escrito em out/19)

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