CASAMENTO MODERNO

Tomei um susto ao me ver frente a frente com Agnes novamente, depois de tão pouco tempo. Nunca acreditei que o ritual iria funcionar assim, fácil. Umas velas pretas, uns ditos em “latim”, uns sigilos em sangue e pronto, o que era um dia morto estava vivo novamente. A chance de falhar era tão gigante que nunca me preocupei de fato com o que aconteceria depois, e então de repente cá estávamos, cada um de um lado do círculo de sal.

Não que houvesse funcionado por completo. Idealmente, a alma do moribundo deveria ser capturada no corpo deitado no centro do círculo, de forma que pudesse desfrutar por inteiro sua nova chance. Mas, no caso em questão, a ressurreição foi incompleta, talvez pelas palavras mal ensaiadas ditas com língua presa, ou pelo corpo ainda estar meio congelado. E não é como se existisse período de estágio para rituais de magia negra — o que está feito está feito e que se lide com as consequência. Logo, o que vi na minha frente foi o resultado dessa falta abismal de experiência: uma existência falha, fantasmagórica, só uma névoa com cabeça, presa somente pelo desenho de convocação.

Se o plano era dormir de conchinha com o recém renascido, nem o mundo físico nem o mundo mágico haviam colaborado muito.

Podia ver nos olhos de Agnes sua aflição, passageira porém brutal. O brilho da loucura da morte era forte em seu semblante, mas tudo havia funcionado e estávamos ali novamente. Juntos. Então ela esticou os braços, controlada como sempre foi pela obsessão e delírio de quem merece o mundo. Se aproximou da borda do círculo. Foi quando pisou em falso e perturbou o sal, rompendo o lacre que selava o espírito dentro da área. Ao mesmo tempo o vento soprou forte, em vingança contra aquela perversão das leis naturais, escancarando janelas e apagando velas.

Aproveitei seu deslize e distração para, evaporado, vazar pela rachadura no círculo e desaparecer pela parede para o quarto.

Agnes gritou, furiosa, percebendo minha fuga. Escondido debaixo de uma cama qualquer pude ouvi-la bater as janelas, o ruído ensurdecedor do vento morrendo aos poucos. Tentei sair da casa, mas aparentemente as regras idiotas de como espíritos devem agir me impediam de me desgrudar dos elementos físicos que me representavam. E, querendo ou não, essa havia sido minha casa durante muitos anos. Uma existência miserável ao lado da mulher com quem casei, mas ainda assim uma existência.

Eventualmente, ela encontrou o cômodo no qual me escondida. Mas claro que não pôde me encontrar. Além de quase incorpóreo, uma cabeça flutuante é muito fácil de esconder no meio de dezenas de quinquilharias e caixas cheias de roupas velhas. Assisti enquanto ela primeiro vasculhava, então tocava um sino (mágico?), então fazia desenhos nas portas com o sangue de mentira que usou no ritual. Por fim, resignou-se a chamar meu nome.

— Por favor, Geraldo. — ela dizia em uma vozinha fina, chorosa, quase convincente. — Deixa de bobagem e volta pra mim. Sei que não te trouxe de volta da melhor forma, mas você está aqui, não? Ainda podemos ser felizes juntos.

 Mas não podemos não, de jeito maneira. Ha! Como se em algum momento tivéssemos sido.

 Passei os próximos dias me esgueirando pelos corredores como um fantasma. Às vezes ouvia Agnes me chamando, suplicando; outras vezes a encontrava trancada no escritório lendo livros embolorados e charlatões sobre como atrair, capturar, manter ao seu lado o homem de sua vida. Ela ainda acendia uns incensos, sacrificava umas galinhas, mas nenhum poder de que fizesse uso me afetava.

 O que me afetou, entretanto, acabou afetando-a também.

 Foi um dia qualquer de chuva e vento lá fora. Eu zanzava pelo corredor, seguro de que Agnes estava em qualquer lugar distante. Próximo à escada, parei apoiado no corrimão, observando o vitral feio que decorava a porta da frente.

 — AGORA VOCÊ NÃO ME ESCAPA!

 Atrás de mim, do outro lado do corredor, Agnes corria desvairada com um saco de linhagem na mão. Cada passo sacolejava do saco uma pequena nuvem branca, que suponho fosse farelo de tijolo ou cal, e que teoricamente me manteria preso.

 Ela não contou com o fato de que minha transparência e leveza permitia a mim simplesmente voar até o teto, evitando seu abraço, e foi o que fiz. Pega de surpresa, não conseguiu parar de correr a tempo e despencou escada abaixo, virando duas, três vezes e se espatifando sobre o carpete esverdeado da sala. Cabeça para um lado, tronco para o outro.

 Desde então, sigo prisioneiro de minha própria casa. Para falar a verdade, não é muito diferente do meu período de vida, exceto pelo breve período em que me senti livre. Assombrar cada quarto era divertido, mesmo sem plateia, e você ficaria surpreso em saber cada cantinho que as aranhas encontram para se esconder.

 Sei que minha liberdade pós-vida tem novamente seus dias contados. Do corpo de Agnes consigo ver uma fumaça tênue, meio branca meio esverdeada, erguer-se e tomar forma, lentamente. Primeiro uma perna, então outra, até ser uma cabeça miúda com nariz adunco. Sua boca em formação clama baixinho, “Geraldo” e “só meu”.

 Se ao menos a morte houvesse nos separado.

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(escrito em fev/20)

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